quinta-feira, 8 de março de 2012

a invenção dos Homens

hoje existem em mim todas as dores do mundo. hoje dói-me ser, dói-me estar, dói-me ter lembranças, dói-me ter um cérebro, dói-me soluçar, dói-me a alma e as lágrimas e o corpo e tudo o que não me dói nos outros dias. é tão sôfrego o doer que pergunto se é real. não responde. mas dói e faz saber que só parará quando eu não quiser que doa mais. é tal a estupidez do querer, é tão intrinsecamente descontrolada que nem nele conseguimos mandar para que a dor intensa pare. já. se o corpo mandasse na alma o mundo era bem mais fácil. mas não é. num suspiro e numa lágrima mora toda a beleza do mundo, toda a sua profundidade. nunca jamais num sorriso. é na pureza da dor que se vislumbra a felicidade que há-de vir. 
está a chegar.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As noites de "Closure"

As noites de "closure" são as melhores. Não sei porquê, os "closures" da vida (os bem feitos) acontecem sempre à noite. É impensável um "closure" de jeito ao Sábado à tarde ou mesmo a um dia de semana à hora de almoço. Não existe. As noites de "closure" são aquelas em que choramos por pensarmos que perdemos algo que já não tínhamos. Que, muito provavelmente, nunca tivemos. E aí percebemos que finalmente acabou. Só muito mais tarde perceberemos que já tinha acabado. Bem mais tarde. 
As lágrimas que se choram nestas noites são as mais salgadas de todas. Escorregam-nos pela cara até à boca e nem temos tempo de as secar, tal é cadência do choro, tal é a vontade que temos de que elas nunca mais sequem. 
Sem as lágrimas que chorei naquela noite nunca teria percebido quão errados éramos. Não eu. Não tu. Mas nós. Sem que tivesses provocado aquelas lágrimas nunca teria percebido que não eras minimamente merecedor delas e de toda a importância que te dei. 
Escrevo-te como se existisses mas sei que não. Sei que a pessoa que és, não a conheço. A que conheci não és tu, era parte de mim e daquilo que precisava que fosses. Não tu, mas alguém, naquele preciso momento. Hoje já não te preciso, já não te sinto, já não te amo. Hoje estás no teu lugar, o teu Eu verdadeiro, a tua pessoa diferente de tudo aquilo que quero para mim. Hoje podemos ser amigos, ou conhecidos então. Estamos em paz. 
Assim são os dias que sucedem às noites de "closure".

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Às vezes...


Gostava que aqui estivesses, só para te mandar embora. Esse poder fascina-me. O de não te querer junto a mim. Se mil espaços houvesse e nesses mil espaços eu estivesse, gostava que estivesses presente em, pelo menos, novecentos e noventa e nove deles. Um fica só para mim. Para estar sossegada, a pensar em ti e em como te mandaria embora, se pudesse.
Digo a mim própria que não te quero comigo. Não me quero contigo nem acho que seja possível estarmos juntos, nem no mesmo espaço, nem no mesmo tempo, muito menos na mesma vida. Simplesmente porque não dá. Se é difícil perceber porquê? Não, não é difícil. Às vezes conhecemos pessoas que nos fazem sentir bem durante um tempo. E depois deixam de nos fazer sentir bem. Só isso. Mas queremos que continuem connosco, nos vários espaços que ocupamos, nos vários tempos que vivemos. Porque esses espaços sem essas pessoas ficam só connosco e esses tempos ficam para pensar e questionar tudo o que nos rodeia. E às vezes não estamos bem só connosco. E às vezes não é bom termos tempo para pensar.            
Dito isto, é difícil perceber porque é que (às vezes) gostava que aqui estivesses. Mas fazes-me falta.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Palavras

Apetece-me escrever palavras sem nexo, que não compreendas. Palavras cujo peso não seja composto pelo conjunto das letras mas pelos sons que não se podem pronunciar nem ouvir. Apetece-me não sei bem o quê mas apetece-me. E, por uma vez, vou fazê-lo. Não sei o quê, mas vou. Mais uma vez, nada a dizer para além daquilo que já foi dito. Mas porque é que as palavras têm o dom de ser mais definitivas que os sentimentos? Não sei nem nunca vou saber. Não há palavras para descrever o que sou e o que sinto. E ainda bem. 

sábado, 23 de julho de 2011

Numa ponte, em Paris

Há quem espere que o amor surja no cruzamento de dois olhares desconhecidos numa ponte, em Paris. E que daí advenha toda a felicidade do mundo. Toda a que se deseja, pelo menos. A felicidade que invade a alma, que dilata as veias e artérias, que faz bater o coração com uma força que é apenas possível sonhar. Aqui não. A força, mais que sonhada será sentida. E essa força permanece, não se esfuma, não vacila. Faz o coração bater e a cabeça andar à roda, como se fizesse falta um pouquinho mais de oxigénio. Só um pouquinho mais de oxigénio. Mas se mais oxigénio houvesse mais se pensaria e esta força de sonho não gosta de pensamentos de realidade. Com o olhar, o desejo. Com o desejo, o toque. Com o toque, todas as certezas do mundo, toda a eternidade passível de caber num sonho. E por aí adiante. Um emaranhado de perfeições, suspiros, ausência de dúvidas e questões, uma sobreposição de certezas inabaláveis e juras de amor eternas. Juras e promessas e pactos de sangue e beijos na boca. Molhados, sôfregos, infinitos. E abraços apertados e sensações de desfalecimento quando a distância é mais do que se pode aguentar. O milímetro existe para medir as distâncias do amor. Impossível usar-se o centímetro. Impossível. 
E aqui estou eu. Eu que não espero nada. Eu, cujo sonho não passa da pálida consecução de uma realidade tangível. Eu, que não acredito em suspiros sonhados, em certezas inabaláveis. Eu, que só espero que me abraces, com todas as minhas dúvidas. Se a certeza vier em mim, será nos teus braços e não numa ponte, em Paris.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Como é que se esquece alguém que se ama?

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 



As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'